A graça de Deus


graca de deus“A natureza da graça não comporta compulsão. Gota a gota ela cai, tal como a chuva benéfica do céu. É duas vezes abençoada, por isso que enaltece quem dá e quem recebe. É mais possante junto dos poderosos, e ao monarca no trono adorna mais do que a coroa. O poder temporal o cetro mostra, atributo do medo e majestade, do respeito e temor que os reis inspiram: mas a graça muito alto sempre paira das injunções do cetro, pois seu trono no próprio coração dos reis se firma; atributo é de Deus; quase divino fica o poder terreno nos instantes em que a justiça se associa à graça. Por tudo isso, judeu, conquanto estejas baseado no direito, considera que só pelos ditames da justiça nenhum de nós a salvação consegue. Para obter graça todos nós rezamos; e é essa mesma oração que nos ensina a usar também da graça. Quanto disse, foi para mitigar o teu direito; mas, se nele insistires, o severo tribunal de Veneza há de sentença dar contra o mercador.” – PÓRCIA – O MERCADOR DE VENEZA – (The Merchant of Venice) – William Shakespeare

A Queda comprometeu o pensamento humano, razão porque precisamos praticar a antítese. Mas nem mesmo poderíamos pensar em antítese se Deus não tivesse iniciado sua obra de redenção. A graça de Deus opera no mundo preservando e redimindo a sua criação, e isso inclui a mente. E nós cristãos, como primícias da redenção, temos o dever de “desenvolver a nossa salvação” manifestando em nossa vida e obra o impacto redentivo da obra de Cristo. Isso significa, entre outras coisas, que os nossos padrões de pensamento devem ser transformados: isso é exatamente o que Paulo ensina em Romanos 12: a renovação da mente. Ou, para usar um termo historicamente importante: a “Reforma” do pensamento.

O pensamento antitético não é meramente uma atividade destrutiva. É antes a preparação do terreno para uma atividade positiva de construção. O pensamento reformado sempre enfatizou o lugar da criação na mente cristã, e a tarefa que Deus deu ao homem no princípio de tudo, o mandato cultural. O homem foi posto no mundo para manifestar a imagem de Deus por meio da atividade cultural, desvelando os potenciais presentes na criação no serviço ao próximo para a glória de Deus. A produção cultural é fruto do mandamento de Deus.

A queda tornou essa produção cultural idólatra, destrutiva para a criação e para o próprio homem, mas não a tornou impossível. Por causa da graça comum, Deus impede que o pecado tenha seu efeito total sobre o homem, conferindo-lhe a possibilidade de viver em sociedade e cumprir o mandato cultural por meio da arte, da filosofia, da ciência, da política, e de toda a sua produção cultural. Mesmo assim, toda essa produção é orientada contra Deus.

O cristão, no entanto, está numa posição muito especial. Como qualquer homem, ele pode e deve cumprir o mandato cultural; mas o pecado não tem sobre ele a mesma influência que tem sobre o homem natural. Ele recebeu a revelação de Deus em Cristo pelo Espírito, e participou da palingênese (processo metamórfico), a restauração de todas as coisas por meio de Cristo, recebendo assim novos olhos, para ver o mundo na perspectiva divina. Assim ele não atua sobre o mundo apenas com o auxílio da graça comum, mas também da graça especial, manifestando em sua própria produção cultural os efeitos da palingênese, mesmo que de forma imperfeita.

Isso significa, em primeiro lugar, que o cristão tem dever de produzir cultura. O pensar cristão deve ser criativo, propondo soluções originais para os problemas teóricos e construindo uma cultura cristã. Por outro lado o cristão não deve “sair do mundo”, pois Jesus nos enviou ao mundo, para viver no mundo (João 17.15-18).

Assim, o cristão deve não apenas produzir, mas também reformar. A finalidade do pensamento antitético é tornar possível a reforma, que é a expressão provisória da graça no mundo, até a consumação. Por isso, o pensar cristão é criativo e reformacional. Criticamos sim, até as raízes, a mente do mundo, e denunciamos a sua apostasia, mas reaproveitamos todos os vislumbres de verdade que ela produziu na construção do modo cristão de pensar e viver. Buscamos manter um processo permanente de reforma de nosso pensar e de nossa vida cultural, de forma a mantê-la coerente com o evangelho.

Ao pensar reformacionalmente reconhecemos que toda produção cultural humana se fundamenta na graça comum e nos apropriamos dessa produção cultural buscando sua conversão estrutural de forma que ela reflita a nossa fé em Deus. Pensar reformacionalmente é assumir uma atitude positiva em relação à cultura, agindo redentivamente no meio dela ao cumprir o mandato cultural com a força renovada do evangelho. Pensando reformacionalmente, poderemos construir uma mente cristã, sólida, rica, profunda, contextualizada e abrangente, que dará respaldo teórico ao grande projeto cultural reformado: a revelação histórica da Civitas Dei.

Por toda a Bíblia vemos, portanto, duas visões opostas, duas soluções opostas para o problema da culpa, duas formas divergentes de reconciliação entre Deus e os homens: uma so­lução falsa que, apesar disso, contém um elemento de verdade, por meio de sacrifícios expiatórios, e também por esforço mo­ral, apesar de totalmente inadequada; e a solução verdadeira, a expiação através do próprio Deus. Nenhum preço pago a Deus pode ser suficientemente alto pelo que ele merece (Sl 50:10-12). “Pois são meus todos os animais do bosque, e as alimárias aos milhares sobre as montanhas. Conheço todas as aves dos montes e são meus todos os animais que pululam no campo. Se eu tivesse fome não to diria, pois o mundo é meu, e quanto nele se contém”.

No salmo que se segue, a solução oposta é expressa da for­ma mais comovente (Sl 51:2, 3, 7).

“Lava-me completamente da minha iniqüidade e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve.”

Mas o anúncio maravilhoso da graça de Deus, que erra­dica a culpa, vai de encontro à intuição que todo homem tem: que um preço deve ser pago. A resposta que vem é a mensagem suprema da Bíblia, sua suprema revelação; é Deus mesmo quem paga, Deus mesmo pagou o preço de uma vez por todas, o preço mais caro que ele poderia pagar: a sua própria morte, em Jesus Cristo, na cruz. A obliteração de nossa culpa é livre para nós porque Deus pagou o preço. Jesus Cristo veio “para salvar o que estava perdido” (Mt 18:11). Aquele que “sempre teve a mesma natureza de Deus… se tornou semelhante ao homem, e apareceu na semelhança humana. Ele se rebaixou, andando nos caminhos da obediência até a morte – e morte na cruz (Fp 2:6-8 BLH). O profeta Isaías já havia vislumbrado este mistério (Is 53:2-5): “Porque foi subindo como um renovo perante ele, e como raiz duma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era despreza­do, e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por ferido de Deus, e oprimido. “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”.

Foi anunciado por um anjo do Senhor a José, enquanto Ma­ria aguardava o nascimento de Cristo: “e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo do pecado deles”. Esta ver­dade foi proclamada pelo próprio Jesus pouco antes da crucifi­cação: “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26:27-28).

Foi proclamado novamente por todos os apóstolos: por João: “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pe­cado” (1 Jo 1:7); por Paulo: “no qual temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef 1:7); por Pedro: “Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos” (1 Pedro 3:18); pelo autor da epístola aos He­breus: “o sangue de Cristo… purificará a nossa consciência de obras mortas” (Hb 9:14).

Recentemente minha esposa fez um estudo desta questão da morte expiatória de Jesus Cristo. Eu fiquei espantado com o número impressionante de citações bíblicas que ela acumulou na sua lista, em harmonia umas com as outras e tiradas de toda a Bíblia. Todas elas expressam a certeza de que a remoção de nossa culpa é assegurada por Jesus Cristo, e que nós fomos reconciliados com Deus pela morte de seu filho, “justificados pelo seu sangue” (Rm 5:9-10). E lembremo-nos de que no pensamento bíblico o sangue é sagrado porque é considerado como a “vida da carne” (Lv 17:2), e é o símbolo da vida para o ser humano. É por isso que aos israelitas foi ordenado sangrar os animais antes de comê-los. Todas as passagens onde o sangue de Cristo é mencionado mostram que nós salvos pela vida de Cristo, pelo presente da sua própria pessoa.

Conseqüentemente os sacrifícios rituais da lei mosaica apa­recem como uma prefiguração do sacrifício de Jesus Cristo. Este tema é desenvolvido extensivamente na epístola aos Hebreus, que foi endereçada particularmente a judeus cristãos instruídos na Lei. O contraste é ressaltado entre o caráter provisório dos antigos sacrifícios e o caráter definitivo do sacrifício da cruz: “Ora, todo sacerdote se apresenta dia apôs dia a exercer o servi­ço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus. Porque com uma única oferta aperfei­çoou para sempre quantos estão sendo santificados” (Hb 10:11-12, 14).

Salvação não é uma idéia; é uma pessoa. É o próprio Jesus, impróprio Deus quem se dá. Em sua presença todos os debates intermináveis que despertam em nós o sentimento de culpa, to­das as diferenças moralistas e nossas defesas contra os julga­mentos de outros, tudo isto se esvai. Vemos isto na conhecida história de Zaqueu, que se enriqueceu à custa do povo. Ele tentou justificar-se e mostrar a sua boa consciência; porém Je­sus o interrompeu com as palavras: “Hoje houve salvação nes­ta casa” (Lc 19:9).

Salvação não é mais uma idéia remota de perfeição, para sempre inacessível; é uma pessoa: Jesus Cristo, que veio a nós, veio para ficar conosco, em nossas casas, em nossos corações. O remorso é silenciado pela sua absolvição. Ele substitui o remorso com uma simples pergunta, aquela que fez ao após­tolo Pedro: “Tu me amas?” (Jo 21:15). Precisamos responder esta questão, e achar em nossa ligação pessoal com Jesus Cristo paz para as nossas almas.

Todos os homens podem se beneficiar desta expiação úni­ca; todos os homens, de fato, “todo o mundo” como João afir­mou (1 Jo 2:2). Jesus Cristo morreu por todos sem qualquer distinção, para homens de todas as idades e regiões, para hindus, para budistas, para muçulmanos, para pagãos e para ateus; basta que nele creiam.

Ele mesmo disse: “Ainda tenho outras ovelhas, que não des­te aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então haverá um rebanho, um pastor” (Jo 10:16). E nova­mente: “muitos virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e tomarão lugares à mesa no reino de Deus” (Lc 13:29). De resto, a sua palavra a Zaqueu é suficiente: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido”. Demonstramos, de mo­do suficientemente claro, a universalidade da culpa, a solidarie­dade da raça humana no estado de perdição. Fizemos isso para que a salvação para todos os homens que crêem em Cristo, e são reconciliados com Deus pelo seu sacrifício, possa ser clara­mente reconhecida. “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3:23-24).

O grande privilégio, que temos como cristãos, é saber que somos perdoados e que o perdão nos alcança através de Jesus Cristo. A ordem aos discípulos de “ir a todo mundo”, foi simplesmente para proclamar a “Boa Nova” (Mc 16:15, BV), para convencer todos os homens e para multiplicar os sinais visíveis da graça de Deus através de feitos poderosos e de curas.

Foi para pregar a metanóia, esta transformação radical, o despertar da consciência de culpa e a erradicação desta culpa: a humilhação do orgulhoso e a restauração dos angustiados. Não que a salvação tenha que ser conseguida. Ela já foi de uma vez assegurada a nós e a todos os que crêem. Tudo já foi consu­mado.

Quando dizes: “Pode Deus fazer com que eu me converta em um Cristão?” Te digo que sim, pois nisto descansa o poder do evangelho. Não pede teu consentimento, mas o obtêm. Não diz: “Quer ter isto?”, mas te faz disposto no dia do poder de Deus…O evangelho não quer teu consentimento, ele o obtêm. Põe fora de combate a inimizade de teu coração. Tu dizes, não quero ser salvo; Cristo diz que tu serás. Ele faz que nossas próprias vontades mudem de parecer, e então você clama: “Senhor, salva-me ou pereço!”. Charles Spurgeon

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